LORD. cê aliás ia falar sobre tua experiência no garimpo.

ÍNDIO. ia, é? sim, eu ia, mas houve este corte, mas ainda posso te dizer que – bom, havia esse lugar chamado Pomeral que era um garimpo e que ficava entre Mato Grosso e Rondônia; lá mesmo onde fui atirado daquele ônibus e que depois andei perdidão a madrugada toda e uma parte do outro dia também até esbarrar com aqueles dois figuras, o Boliviano e o Mato Grossense, que me levaram a este lugar com promessas de que podíamos ficar ricos com a extração de ouro. e quando lá cheguei, claro, um impacto, cara, porque o garimpo é aquela onda toda, né cara? fiquei um tempo olhando abestalhado para aquelas enormes dragas com seus tubos de sucção de aço chupando as pedras preciosas que ficavam no fundão do rio, porque o ouro que é extraído dos rios de Rondônia é feito por meio daqueles enormes monstros mecânicos, entendeu? e eles ficam ali só na deles drenando a areia debaixo que contém o ouro, então esses MONSTROS MECÂNICOS ENORMES vão perfurando, né, mais e mais, uns trinta metros de profundidade, não, não, não, não, trinta metros, não, mas, uns quinze ou vinte, mas chega a trinta metros sim, e bom, aí que, o ouro é sugado por um tubo de sucção de aço e em seguida é despejado numa esteira toda feita de carpete responsável pela absorvição daquela areia que contém o ouro… depois que este ouro é retirado da esteira, ele segue para o processo de peneiração onde aí sim, vão ficando os primeiros indícios de ouro que serão colocados em uma cuia de ferro junto com o azougue que é um metal líquido popularmente conhecido como MERCÚRIO, né? ele absorve somente o ouro e pronto, aí está o princípio de tudo…

LORD. todo um processo, eu sei, mas… fala um pouco do aspecto daquelas pessoas ali. isso me interessa saber também…

ÍNDIO. bom, temos que avaliar assim: patrões e empregados, desde os primórdios, né cara? a eterna luta de classes. noventa por cento dos empregados eram pessoas rudes; pessoas assim, bem sofridas mesmo, assim, tipo, sem perspectiva alguma na vida a não ser sair dali com bastante dinheiro no bolso, chegar em um bar – e isso deixa eu lhe dizer – faz parte até da vaidade deles, que era de chegar no bar, fechar o bar, juntar mulheres e beber, beber e beber e mostrar seus cordões de ouro e seus dentes de ouro, e, é é é, essa coisa de mostrar o cordão de ouro, ela é mais predominante entre os patrões, mas existiam a piãozada que gostava de exibir seus cordões de ouro também…

LORD. havia alguma alegria ali? tipo, como era o ambiente lá, cara? era triste, algo assim?

ÍNDIO. um contraste, né, cara – uma falsa alegria era o que se podia ver no rosto daquelas pessoas… Burguês, cara, se eu falar para você porque raios eu fui viver essa vida, cara, especificamente no garimpo – e agora sim fiquei bastante entusiasmado para lhe contar sobre minha vida no garimpo porque há uma porção de coisas que talvez não caiba neste teu livro que pretendes escrever porque eu também não quero sair atropelando as lembranças porque sei muito bem que pode atrapalhar todo o processo, e tu me conheces muito bem que quando começo a falar eu, eu, eu… me emociono, pacas.

LORD. não, não, não, quero que tu faça apenas um apanhado dos fatos, tipo, o aspecto do lugar, das pessoas…

ÍNDIO. começa, começa, começa, assim… como podemos começar, bom, começamos assim falando das currutelas que é o principio de tudo, é onde tudo começa; bares, farmácias, comércios, alojamentos, bordéis, e bom,  a isso dá-se o nome de currutelas, e as currutelas nada mais são que picadas abertas na mata. por exemplo, cara: uma draga daquela fareja e encontra ouro ali e então a notícia se espalha, e o que acontece é que, obviamente só terão acesso aquele lugar através do rio, então as pessoas como pragas se dirigem para  lá por meio de balsas ou voadeiras. os que chegam de balsas trazendo as dragas, são para cavucar o ouro, enquanto os outros que ali chegam de voadeiras, são para derrubar as primeiras árvores para edificar o bar…

LORD. são as primeiras picadas, né?

ÍNDIO. são as primeiras picadas para edificar o bar, depois uma outra árvore para edificar a farmácia, e depois mais outra que é pro comércio, e mais outra e outra até ir se formando um organismo vivo que é a currutela, e aí cê sobrevoando de  helicóptero o que você vai poder ver e o enorme vácuo que fica na mata e aquilo dói, cara!

LORD. aham. caralho…

ÍNDIO. a currutela geralmente começa no rio e avança em linha reta para o interior da mata. uma reta, deixa eu ver… bom, cem a duzentos metros em linha reta, aí assim, as edificações vão se formando uma ao ladinho da outra, tipo, os bordéis, os alojamentos, as farmácias, os comércios, os bares… mas o que predomina mesmo são os bares que na verdade são  bordéis, são mais de… não sem bem te precisar, mas sei que tudo que chega às currutelas vem pelo rio, agora há algumas currutelas – e são poucas – que tem o privilégio de receber as provisões pela estrada, mas só algumas, a maior parte vem pelo rio mesmo…

LORD. e a dona desses bordéis, cara, a maioria são mulheres, não é mesmo?    

ÍNDIO. putas velhas que já não servem mais para o sexo, mas que são úteis para organizar um bordel e recrutar meninas.

LORD.  e essas meninas são de onde exatamente?

ÍNDIO. no caso de Rondônia, Burguês, a maioria são rondonienses mesmo, acreanas, paraenses, ou até mesmo amazonenses…

LORD. elas são iludidas, é? como funciona?

ÍNDIO. algumas são iludidas sim, cara, outras não; sabem para o que vem. só que elas não tem uma noção do que vão encontrar de verdade lá; elas pensam que é mais um bordel da cidade, e não é. o que elas vão encontrar lá são homens rudes que compram o teu amor com dinheiro e ouro e se não rolar sintonia, eles matam, e lá eu conheci a Rose, cara, que era uma acreana linda linda linda, cara, e as acreanas, deixa eu te dizer,  são lindas de matar, e a Rose foi o seguinte, a Rose foi mais uma daquelas garotas iludidas com promessas de um emprego decente em Rondônia, mas que acabou indo parar no garimpo de Pomeral.

LORD.  e quem foi que a recrutou?

ÍNDIO. ela me contou tudo, cara, tudinho. uma certa mulher havia prometido à mãe da Rose – e isto ainda em RB, manja só, que ela empregaria a filha dela como garçonete em um restaurante em Rondônia, e de fato essa tal mulher tinha mesmo um restaurante, só que, as garotas que eram contratadas por ela para trabalhar neste restaurante, cedo ou mais tarde eram vendidas a outras pessoas proprietárias de bordéis nos garimpos. foi o caso da Rose, que trabalhou alguns meses neste restaurante e depois foi vendida a um desses bordéis que ficava em Pomeral.

LORD. depois que entra, não sai mais, é?

ÍNDIO. é difícil porque é o seguinte, né, cara, tu tá no antro da perdição, imagina, aonde a Rose foi morar era um puteiro, cara, tu passa a morar  num quartinho feito de lona com vigas de madeiras, chão de barro e cobertura de palha, e é nessas condições que tu passa a viver, porque no garimpo não existe luxo, não, o garimpo, Burguês, é que nem fábrica pré-moldada, pré-moldada não é isso? quando o ouro não dá mais pé, cê desmonta rapidinho e vai embora para outro estado, porque cê sabe que a currutela é um organismo que vive em função do ouro, e chega um dia que tudo seca, cara, e aí é hora de desmontar tudo e ir embora, quem ganhou, ganhou, quem perdeu, perdeu, é a lei do garimpo, por isso não há uma necessidade de se construir habitações de conforto porque ninguém tá interessado nisso; tendo um quartinho, bebida, dinheiro e mulher, tá  bom demais porque os caras ali são animais, animais mesmo, não estão nem aí, cara, eles matam brincando, É A REGRA, e aí quando acaba o ouro o pessoal desmonta tudo rapidinho, tira a lona pou pou pou pou pou tudo que é pau e palha e, a coisa mais horrível, cara, é uma currutela depois que o ouro acaba,  que coisa mais feia, cara… sabe que é tu ver só cachorros vagando perdidos pela estrada porque não alcançaram as balsas e tiveram que voltar? cachorros e cadelas gordas que ficaram para trás e que mais tarde vão vão vão ser devoradas por onças ou por outros animais selvagens, ou então ficarão magras e morrerão de fome porque… acabou, cara, acabou,  e o que era uma picada, logo vai  desaparecer e aí a mata vai se fechando de novo e tomando conta de tudo outra vez, como algo sobrenatural, e numa ocasião, eu fui em uma, cara, fui em uma currutela imensa e toda iluminada com luzes de arraial, cara, não era luz de motor, não, eram luzes de verdade, luzes de verdade, e era assim de ponta à ponta toda iluminada, e eram umas luzes tristes de cortar o coração, e não eram somente as luzes que me deixava com o coração cortado, não, mas a musiquinha que tocava o dia todo em um alto falante invisível; saca aquele orgãozinho de carrossel que cê ouve quando você vai aos domingos a um parquinho pobre desses arrebentado e fica ali olhando a roda-gigante girar sem parar e aí você lembra que está sozinho na vida e que não há nada mais importante a fazer do que ficar ali olhando aquela imensa roda girando e girando e girando e aquele orgãozinho triste tocando lá no fundo e aí você se pergunta afinal, e agora o que que eu vou fazer com a porra da minha vida agora? não há um sentimento pior que a solidão, e tudo ali naquela currutela era solidão e lembranças mortas, é aí que você se dá conta de verdade que está em um garimpo longe de casa e que está fodido porque você não juntou nenhum ouro até agora, nada de nada, que tudo é uma ilusão, que a porra do ouro é uma ilusão, que tua vida é uma grande ilusão…

ÍNDIO. olha, Burguês, isso aconteceu no início dessa década, logo que voltei de Porto Velho.  fiquei muito tempo fora de Manaus e quando voltei eu precisava me relacionar novamente com a moçada, então lembro que a gente se reunia no LÓTUS BAR, que ficava na rua de cima, e o proprietário, o Marcelo, era um cara legal. nós levávamos as nossas fitas e ouvíamos o que queríamos, então havia toda aquela agitação daquele final dos anos oitenta…

LORD. quantos eram ao todo?

 ÍNDIO. uns dez  aos quinze, era. tinha dias que chegava a quinze pessoas.

LORD. tinha garotas no meio também?

ÍNDIO. tinha. lembro que havia três irmãs com nomes esquisitos.

LORD. tipo?

ÍNDIO. terminavam com LÂNDIA,  tipo, Andrelândia, Silverlândia, e a outra cara, deixa eu lembrar, eu não, não, não estou lembrando agora, mas terminava com lândia também…mas esta tinha um apelido estranho e eu lembro.

LORD. e como era?

ÍNDIO. era, Careca.

LORD. Careca?

ÍNDIO. isso, era Careca, porque ela tinha um cabelo muito baixinho, muito regadinho, saca, e ela pintava de azul, parecendo um personagem da turma da Luluzinha…

LORD. bom, tinha garotas também…

ÍNDIO. tinha, e rolava muita cerveja porque a maioria trampava.

LORD. tu trampava em quê?

ÍNDIO. trampava de chapeiro num lanche que ficava no bairro da Cachoeirinha.

LORD. sei, continua.

ÍNDIO. quando tínhamos dinheiro tomávamos cervejas, né? mas quando estávamos durangos, aí inteirávamos pra cachaça ou montila. fazíamos caipirinhas, batidas e deixava rolar, mas quando estávamos por cima de grana mesmo aí rolava basicamente Cerveja, Campari, Conhaque, e até um whiskizinho, barato mesmo, tipo Natu Nobílis, por exemplo, e é claro, o fumo não podia faltar. aí que sexta feira, um carinha da turma deu a ideia de irmos á praia da Ponta Negra: “pô, porque não vamos dar uma esticada na Ponta Negra a turma toda, hein?” aí a gente, a gente…meio que receiosos de ir pra lá porque naquela época a Ponta Negra era uma porcaria, né? mas aí aquele papo de curtir uma noite diferente, acabamos decidindo ir todo mundo…e aí foi que aquelas nossas idas à praia da ponta Negra nos fins de semana, tornaram-se frequente entre nós, e isto foi durante quatro meses – enchíamos a nossa cara no Lótus Bar, e já muito doidões, pegávamos um ônibus até a estação da Matriz, e de lá o último, rumo à Praia da Ponta Negra.             

LORD. as garotas também iam?

ÍNDIO. todos iam, cara, numa algazarra só.  chegando lá, era pura curtição. cada um correndo atrás do outro – as três lândias nuas na praia, todos nus, bebendo e fumando cada um seu bagulho sossegado, olhando as estrelas,  um frio do caralho, mas ninguém sentia falta do cobertor não, saca? nunca rolou bronca nenhuma,  não, mas até aquele dia, né?

LORD. quê que rolou?

ÍNDIO. a morte do Sapo, cara!

LORD. Sapo? quem era o Sapo?

ÍNDIO. o Sapo era um figura da turma. foi quem deu a ideia do passeio á Ponta Negra. já chego lá.

LORD. soh.

ÍNDIO. o Sapo era um figura querido da turma, só que ele ficava ás vezes inconveniente quando bebia muito. nesse dia ele achou de misturar tudo, saca?

LORD. como era o nome dele mesmo?

ÍNDIO. cara, o nome dele sinceramente não sei, todos o conheciam como Sapo ­- Sapo, Sapo, Sapo, Sapo… um tipo assim, entrocadinho, moreno, bem escuro, assim, uma aparência de um sapo mesmo, mas era gente fina.

LORD. sei.

ÍNDIO. neste dia foi muita gente, muita gente, porque também tinha o pessoal do Boquinha e do Bode. o Boquinha era um camelô e ele morava em São Lázaro, só que ele vinha do bairro dele curtir pra cá, bebia com a gente e tal. já o Bode era prata da casa, se criou aqui mesmo. nesse dia rolou muita bebida,  a gente ia curtir muito, sempre curtíamos muito… então nesse dia  foi uma festa, todo mundo se confraternizando e eu me lembro que não era feriado nenhum, e muito menos aniversário de alguém, era só um fim de semana qualquer, um sábado cara, e quando amanhecesse o dia, voltaríamos todos aos trapos, feito zumbis, de volta para as nossas casas, mas sem arrependimento ou culpas, então eu  ficava ali as vezes sentado em algumas daquelas pedras olhando o rio e a noite, rabiscando poemas na minha cabeça e todos aqueles meus companheiros ali bebendo, se divertindo e eu fazendo parte daquela alegria também e eu nunca tinha visto tanto brilho nos olhos do Sapo naquela noite. ele até cantou, coisa que nunca fazia; lembro que naquela noite ele chegou comigo nas pedras e disse: “e aí, Sam, tá curtindo essa noite, cara?” aí eu disse: “pô, que massa”.  ele acendeu um preto e passou  pra mim. ficamos os dois ali fumando nas pedras olhando a paisagem; um vento do caralho soprava. clima agradável, saca? maneiro mesmo. depois não falamos mais nada, ele deu um pega considerado no preto, tomou um gole da minha cachaça, pulou da pedra, e já totalmente nu, correu na direção do rio. vi ele mergulhar e olhei a lua. ela era toda feita de prata; tudo era lindo. as três lândias também eram lindas caminhando nuas e descalças na areia. uma comuna, cara. me senti numa comuna de verdade.  mas aí que, já por volta das sete da manhã, quando nos reunimos pra ir embora, foi que sentimos a falta do Sapo. começamos a chamar por ele e nada. não era justo alguém ficar pra trás. as lândias sentiam frio. todos tremendo ali na areia, olhando desnorteados para todos os lados. nenhum sinal do Sapo. chegamos a pensar que ele tivesse ido embora sem a gente. mas seria muita falta de consideração do cara. o trato sempre foi de irmos todos juntos. havia alguma coisa de muito errado naquilo tudo. nos dividimos em dois grupos e começamos a procurar por ele. o sol vindo com tudo. “ninguém vai embora sem o Sapo.”, disse o Marcelo. andamos de um extremo ao outro da praia. procuramos nos bares de cima, mas nenhum sinal do Sapo. comecei a sentir frio e fome. as lândias encolhidas, começaram  a chorar. eu olhava para os rostos secos e baqueados dos colegas, enquanto o Sapo, nada. um deles cogitou: “ele foi embora, moçada.”  eu disse: “não, não foi, não. ele pode ter se afogado.” olhamos todos pro rio atrás de uma resposta. o Marcelo sugeriu que mergulhássemos, então ele, o Boquinha, o Bode, eu e os outros, mergulhamos e ficamos mergulhando naquele rio gelado acho que, até umas nove da manhã, e nada dele. fui o último a desistir e caminhei trincando os dentes na direção dos colegas que estavam aglomerados como zumbis próximos das pedras, e  aí é que tá, né, cara, aí  é que tá, se você deixa alguém estragar a tua noite, acaba tua noite, acaba tudo, né cara? acabou o clima, e o Sapo conseguiu acabar com a nossa noite porque no fundo todos ali sentíamos que havia acontecido alguma coisa de muito ruim com o Sapo. o cara podia até ter morrido ali, mas não ali naquela hora, naquele momento, entendeu?

LORD. e o cara morreu mesmo?

ÍNDIO. desapareceu, cara. e isso é sério.

LORD. como desapareceu? ele se afogou, então? não encontraram o corpo dele?

ÍNDIO. o Marcelo perguntou quem de nós havia visto o Sapo pela última vez? fiquei pensando que eu havia falado com ele uma última vez nas pedras antes dele mergulhar no rio, e depois não lembro de mais nada porque o álcool me nocauteou. mas aí que o Bode, que até então tava muito mais quieto e estranho que os outros, nos falou que o Sapo havia dito pra ele que atravessaria para a outra margem; aí que rolou uma aposta entre eles, e foi então que o Sapo, já muito doido, aceitara a aposta e então ele pulou no rio, e depois o Bode não lembrava mais de nada porque também caiu nocauteado na areia. foi aí então que não tínhamos mais dúvidas que ele havia se afogado mesmo porque ninguém conseguiria atravessar aquele rio turvo em pleno estado de embriaguez. puta que o pariu! gritou a Careca. os banhistas do domingo começaram a chegar porque já eram quase onze da manhã e o sol tirânico queimava as nossas peles secas. os banhistas olhavam curiosos pra gente. uma das lândias perguntou se íamos deixar pra lá ou se íamos chamar a policia ou o corpo de bombeiros. o Boquinha ainda cogitava que o Sapo tivesse ido embora, que devêssemos ligar para casa dele para checar. mais ninguém sabia nada da vida do Sapo, de que pântano ele veio, nem onde ele morava, nada. e se chamássemos a polícia, podia foder todo mundo.

LORD. bom, o cara não voltou mais? encantou-se, é?

ÍNDIO. bom, aí eu vi o desespero real nos olhos dos meus colegas. eu não entrei muito em desespero porque eu sempre fui um cara preparado para a morte, né cara, quer seja a morte de um familiar meu ou de uma outra pessoa… pô, não, cara, fiquei ali sentado com a moçada pensando numa saída pra aquela merda toda… chama a polícia! chama a polícia!  alguns queriam, outros não, isso vai dar em merda, cara, vai dizer que matamos o cara; foi então que todos resolvemos voltar para casa e acreditar que  ele não tivesse morrido, que de uma hora para a outra, naquele dia mesmo, ele resolvesse dar as caras pelo LÓTUS, e esperamos por ele o dia todo, e na manhã seguinte também, e no outro dia também, a semana toda, o mês todo, até se completar um ano, e nada do cara aparecer. o fato é que ele nunca mais voltou. depois de um bom tempo, de um bom tempo mesmo, quando voltamos a nos encontrar no LÓTUS, fizemos um pacto de nunca mais tocar no assunto, e aí então naquela noite a turma se desfez para sempre como que num encanto…

LORD. isso é maluco cara, porque ninguém desaparece dessa maneira. ninguém encontrou mais o corpo?

ÍNDIO. não, nunca mais!

LORD. e a polícia?

ÍNDIO. nem sombra de nada.

LORD. como é que cê vive com isso até hoje, cara? não rola culpa, não?

ÍNDIO. sei te explicar bem não, mas rola, rola, um outro tipo de sentimento que não é bem, assim, culpa, não, saca? é um… sentimento de peso na alma ou o que quer que seja que exista em nosso interior, mas que não é bem, culpa, não.

LORD. sei, tipo, algo bem parecido com a ideia daquele teu livro de poemas sobre a morte de quase cem páginas que pelejavas escrevendo antes de viajar para Porto Velho, lembras? sobre quando você… mas você não estava preparado ainda pra desenvolver bem esses mistérios profundos da alma, só que – na minha opinião sincera, é que, tudo agora é muito mais interessante porque agora, podes fazer um resumo fodido de bom de tudo que se relaciona com a morte porque estás muito mais bem preparado agora para falar mais abertamente dela porque cêe viu a morte uma centena de vezes presente e eu não duvido mais de sua capacidade, não de desmistificação, mas muito mais de interiorização, cê me entende?

ÍNDIO. aham… mas olha… rola mais cerveja, Burguês? tô durango.

LORD. rola sim. mas pô, todo esse papo sobre morte…

ÍNDIO. que que tem?

LORD. me deixou com frios nos pés e aqui na nuca também.

ÍNDIO. e eu nem te falei da metade das mortes que eu vi… uma centena delas como cê falou…

(Jessé no fundo: como cachorro na noite, vou seguindo meu caminho…)

lord.  como é o negócio?

ÍNDIO. era um domingo triste como esse. o filho duma égua esperou meu cunhado abaixar pra amarrar o tênis e aí, enfiou a faca na bexiga dele. isso tudo lá embaixo, na Raquel. eu vi da minha janela o caminho que meu cunhado fez com a faca enterrada na bexiga. achei que estivesse bêbado, por isso não liguei muito. tava muito chateado porque ele foi beber sozinho daquela vez. o infeliz chegou vivo até em casa cambaleando, mas na manhã seguinte, morreu no hospital com hemorragia interna. quando me deixares em casa, vou te mostrar direitinho o caminho que ele fez. ainda há marcas de sangue no asfalto. e olha que já faz uma cara de tempo.

LORD. tipo o quê?

 ÍNDIO. uns… três anos atrás.

LORD. tudo isso? mas e a chuva? e o tempo?

ÍNDIO. a chuva não lava o que o tempo não apaga.

LORD. só.

ÍNDIO. meu cunhado era um cara legal. tirou minha irmã da zona e fez um puxadinho aqui mesmo pra ela. bebíamos juntos aos domingos e torcíamos para o mesmo time. mas ai que naquele domingo ele queria beber sozinho na Raquel e aconteceu o que aconteceu. uma discussão besta, um mal entendido, sei lá, ninguém sabe. sou índio, cara, e eu mato. quando soube, me armei de facão e desci até a Raquel, mas nem sinal do filha da puta. té hoje. polícia não resolve nada. quem resolve é o homem. de modo que se eu encontrar esse filho duma puta vivo até hoje, eu mato na degola. agora vou te dizer uma coisa, eu tenho um irmão caçula muito querido que sei que ele não presta no sentido de não fazer nada na vida, só querer beber, fumar maconha e olhar pra lua, mas se alguém encostar no meu irmão, eu mato, sacou? tenho sangue manaó que corre aqui nas minhas veias. e este meu irmão é a única pérola que eu tenho em casa. e se alguém tocar nele, eu mato o cabra. faria sabe como? bom, eu pegaria o cara… quer dizer, posso descrever como eu faria? tem algum problema?

LORD. não, manda, vai.

 ÍNDIO. grava aí então: eu pegaria o cara, vou te falar francamente, eu pegaria o cara, chamava uma moçada aqui do bairro, o Lalau, o Pirapitinga, o Ratão e o Zenon, a gente levava o cara pro meu quintal, amarrava ele numa árvore, pegava um chicote que eu tenho lá em casa – um chicote de corda de náilon – surrava-lhe bem as costas dele, aí depois, com o terçado, torava-lhe a mão direita, depois a esquerda, aí então um pé, depois o outro, entendeu? aí o seguinte, cara, arrancava-lhe o pênis e os sacos, depois embolava tudo e enfiava-lhe na boca para que ele parasse de gritar porque eu sei que a dor é grande, mas purifica, e aí então, com um único golpe, partiria seu crânio ao meio, dando por encerrado a sessão.

LORD. e o corpo? o que tu ia fazer com o corpo?

 ÍNDIO. enterraria ali no quintal mesmo, ou então daria os restos pro Ernesto que anda velho e sem fome.

LORD. putz, cara, que frieza? farias tudo isso mesmo?

ÍNDIO. faria, cara, porque eu faço!

LORD. de repente, teus poemas são tão humanos, e agora tu me dizes isso.

 ÍNDIO. é cara, mas ele matou meu irmão, então ele não é humano.

LORD. tipo, código de Amuhrab?

 ÍNDIO. é isso mesmo, cara, olho por olho, dente por dente.

LORD. mas tu fazendo isso, tu não serias mais desumano que o cara que matou teu irmão?

ÍNDIO. (rindo bem alto) imagina, cara, se eu faria isso. tô brincando, tô brincando…

LORD. affiii… eu, eu, quase que acreditei, cara. me arrepiei todinho.

ÍNDIO. imagina, Burguês, tava só tirando uma onda contigo porque tua alma é uma flor. é claro que se um cara matasse meu irmão, eu chegaria com a justiça e diria: toma justiça, agora resolve este caso. mesmo sabendo que a justiça não funciona nesse país. imagina, cara. não mato um carapanã. passo mal com sangue, cara.

 LORD. (sorrindo mais calmo) por que matar, né cara? olha ontem mesmo eu cheguei em casa aí tinha um sapo no banheiro, um sapo…

 ÍNDIO. ah, cara, não mato, não mato…

 LORD. minha mãe gritou, cara, ela queria que eu matasse o sapo, mas não mato sapos, aranhas de parede, não mato. tenho pavor de aranhas de parede, mas não mato… minha mãe tem horror de gias, quando ela vê uma gia ela entra em histeria e põe a casa de pernas pro ar, aí eu digo, calma mãe, é só uma gia. mas como explicar que o medo é algo que construímos dentro da nossa cabeça? ÍNDIO. porra, o Monjica trabalhava isso maravilhosamente bem, e ninguém sacou nada. o cara virou um pastelão.

LORD. lembra da Sala Especial ás sextas feiras? assistia os filmes do Monjica na sala especial. ÍNDIO. se lembro, cara, eu me acabava em punhetas. já batia punheta nessa época. vai, vai, vai!! ahhhhhh… como era doce o meu francês…

 LORD. eu sentia uma certa excitação, não vou mentir… mas eu batia punheta mesmo era nos filmes do Jece Valadão… sei lá, aquele cara tinha uma pegada boa.

ÍNDIO. Burguês, olha, sempre digo pra minha filha e pra minha esposa: o FraNZ é um cara bonito, um cara… que tem muitos conhecimentos…não é rico, mas deve ter um dinheirinho sobrando em algum banco, mas trabalha e ganha razoavelmente bem – tem uma mãe maravilhosa, com todo respeito, mas eu francamente não sei o que ele tanto busca… o que tanto cê busca, Burguês? fala pra mim o que tu quer saber mais? posso te ajudar, cara, o que tanto cê busca?

LORD. símbolos comuns da vida. cê é uma referencia pra mim. te conheço uma cara, e o que eu busco não está nos condomínios… quando eu sempre digo que conheço um poeta maravilhoso eles me perguntam, aonde ele mora? aí eu digo, em Petrópolis, aí eles dizem, em Petrópolis? sim, em Petrópolis, cara, ele mora em Petrópolis mermão, lá em seu barraco lá, cara, vai questionar? o cara tem um pensamento, as palavras pulsam no papel, estão lá pulsando nesse momento agora, cara. ÍNDIO. cara, me lembraste o Zeca falando.

 LORD. ás vezes incorporo o Zeca. mas deixa eu te dizer: no seminário de ontem na faculdade, eu estava bêbado, eu apresentei um seminário bêbado, li-te-ral-men-te bê-ba-do, e no final da minha apresentação, eu rasguei o poema do Bilac que eu deveria ler, e no lugar, declamei o seu.

ÍNDIO. como foi isso?

LORD. foi o seguinte: quando saí da tua casa eu parei no boteco e bebi pra caralho, depois do trabalho enchi a cara novamente, cheguei na faculdade literalmente bêbado e quando cheguei lá pra apresentação, eu vi a sala toda enfeitada com cartazinhos, painés, retroprojetores, tudo muito organizadinho, e eu tinha no bolso apenas um roteiro amassado do que eu supostamente iria falar sobre os parnasianos, e quando chegou minha vez, eu disse que achava um porre falar dos parnasianos e que não deveria ler aquele poema de 04 versos todo arrumadinho do Bilac, que ele fosse á puta que pariu que eu não ia ler merda nenhuma dos parnasianos e muito menos dos modernistas, acho que meti os modernistas no meio também, sei lá, e aí então eu acabei rasgando o poema do Bilac ali mesmo e peguei o do Sam e comecei a ler e todos ficaram me olhando odiosamente, e como era longo aquele seu poema a professora não deixou que eu o concluísse, dizendo: o senhor fugiu da pauta, seja mais breve e nos fale com clareza sobre o que lhe foi proposto, e contenha-se, Sr. Franz, o senhor está nervoso demais… eles nunca entenderiam toda a minha fúria, Sam, eu queria na verdade que todos soubessem que o marido daquela filha da puta – que no bimestre passado havia me reprovado – escrevia poemas parnasianos imundos e hoje é membro da academia, e é por isso que eu odeio cada vez mais os parnasianos.

ÍNDIO. eu agradeço pela lembrança, Burguês, mas seja franco, cê me acha um poeta de verdade? LORD. tu és um poeta, cara. a não ser que tenhas me enganado todo esse tempo. (RISADAS DO ÍNDIO)

 ÍNDIO. mesmo assim, liso, sem dinheiro? te explorando todas as vezes que põe os pés neste bairro? LORD. tu és um poeta feio e liso, cara! e eu te amo por isso. (nesse instante os dois riem, e logo depois param e prestam atenção numa canção idiota que toca, mas não dizem nada. mais tarde, quando o fluxo de bebuns diminuem no bar da Maria Pinto, o Indio dá um jeito de ouvirem Billie Holliday que FraNZ trazia escondido consigo em sua bolsa de carteiro, e seguem conversando melancolicamente ao sabor da música…)

LORD. cara, agora é outra onda. ouve só esse sopro de sax.

ÍNDIO. Ella Fitzgerald, é?

LORD. não, cara, é Billie Holliday. manja só esse trompete no fundo. quanta tristeza, meu Deus!! ÍNDIO.

é como, é como…

 LORD. é como olhar a chuva de tarde e chorar de saudade olhando os móveis da minha casa, os retratos antigos na parede, as cortinas da sala, a sombra das garrafas de bebidas e os lenços coloridos da cabeça compondo a silhueta da minha mãe sentada nos fundos da sala, pernas cruzadas, fumando sozinha seu Continental e ouvindo Benito de Paula ou os Brutos também amam.

ÍNDIO. sua mãe fumava, cara?

LORD. fumava e bebia tranquilamente todo fim de tarde. era como um ritual: ela colocava um disco na vitrola, servia-se de um bom whisky, acendia seu cigarro e ali ficava em silencio, pensativa. a casa enchia-se de seu perfume materno e de uma tristeza bonita e intransponível. eu me aproximava da sala sorrateiramente e me punha ali só para vê-la congelada no tempo. era como se eu nunca mais fosse tocá-la, ou voltar para dentro de seu útero. isto em 79.

 ÍNDIO. isto tudo que me disseste me tocou muito. ficou um doce-amargo na boca. não consigo ter uma lembrança boa assim. é tudo tão enevoado. mas agora senti a pureza do sopro. é como ir folheando devagar as páginas do “Subsolo” do Dostoievsky.

LORD. né? ÍNDIO. quanto àquela tua pergunta inicial antes de ouvirmos Billie, lembras? se estou bem lembrado dos pormenores, né cara, os detalhes bem não… realmente, a última vez que te contei isso já faz quase um ano, e este ocorrido já avança para os dez anos. agora tu achas mesmo necessário contar? LORD. cê quem sabe.

UMA NOVA GRAVAÇÃO (Bairro de Petrópolis – 1998) (TILINTARES DE COPOS E BARULHO DE MOTO ARRANCANDO NO FUNDO)

 ÍNDIO. este bar aqui, Burguês, é da Maria Pinto. te trouxe aqui porque aqui é o único bar deste bairro que ainda bebo. LORD. gostei daqui, Sam. ÍNDIO. chego aqui, bebo o que eu quero, ouço o que eu quero, falo com quem eu quero. nos outros bares as pessoas me odeiam. não suportam minha cara, sabe. ainda hoje quando vou a um mercadinho lá embaixo, as pessoas olham pra mim, assim de lado, como se dissesse, maconherozinho, cachaceiro, vagabundo, pilantra; até pederastazinho já ouvi chamarem por trás. mas o que eles não sabem é que eu sou o fundador desse bairro. quando cheguei aqui essa gente nem existia. eu andava livre, subia nas árvores e tomava banho nu nos igarapés que corriam atrás da rua Raquel – hoje tomada pelos traficantes aqui do bairro, saca? o que eles não sabem é que sou poeta e que ajudei a fundar a sede do Partido Comunista aqui no bairro, e que graças ao partido, trouxemos melhorias pra cá, tipo, água, luz, posto de saúde, escola… e quem sou eu agora? LORD. nossa, cara, que sensação mais escrota de injustiça essa. ÍNDIO. mas deixamos de lado. ouviremos música sacra e dançaremos na chuva, cara! LORD. isso seria maravilhoso! (um pagode assassino tocando no fundo: não quer saber de nada não quer ver ninguém) ÍNDIO. olha, Burguês, eu não quero ter vínculo algum com essa poesia que tá aí, sabe? eu sou poeta assim, sabe, calado, da noite. ando sozinho, sabe, e eu quero botar minha poesia na rua dessa maneira, saca? sem muito alarde porque sou tímido pra caralho, sou tímido mesmo. eu escrevo a poesia e não quero que ninguém veja ela, ou a veja, arghhh, esse nosso português é horrível… LORD. não esquenta, não, estamos falando uma linguagem bem coloquial aqui. ÍNDIO. a coloquilialidade, arghhh… enrolou tudo agora! LORD. uma linguagem solta e sem frescura, cê sabe disso. ÍNDIO. não, não, vale tudo, eu sei! mas é o seguinte, cara, minha poesia sai das entranhas do meu barraco, e você conhece muito bem o meu barraco. muitas vezes eu escrevo sozinho lá dentro, sob luz de velas. tenho mais de vinte poesias inéditas que eu queria te mostrar. só quem sabe disso sou eu mesmo. LORD. não são poesias póstumas, não, né? ÍNDIO. não sei, seu eu morrer depois, pode se tornar póstuma. LORD. (rindo) cê acha que aos quarenta anos é a idade ideal de morrer? ÍNDIO. aos quarenta? se eu morresse hoje tava bom demais. eu ia botar muita fé em você, porque a primeira coisa que cê deve fazer após minha morte é o seguinte: deve ir lá no meu barraco e dizer: “Socorro, cadê os poemas do Sam? onde estão? a Socorro banhada em lágrimas diria a você: “estão ali, numa bolsa de palha dourada pendurada com chocalho!” e você com aquela gana de botar logo as mãos nos poemas, né: “tá bom, chora aí que já estou indo…” mas é claro que tudo isso é brincadeira, vamos parar com isso… não, mas, olha Burguês, tipo assim, ó, se eu morrer primeiro que você, fica acertado assim, cê leva para sua casa os poemas e cuida bem deles pra mim, porque é muito provável que, com essa vida que eu levo, bebendo e fumando desenfreadamente, eu me despeça desse mundo antes que você. afinal, não sabia não, né? mas sou cardíaco, como o meu pai. sou cardíaco. outro dia agonizei na cama, e pra eu poder respirar, a Socorro teve que dar porrada por várias vezes em meu peito pra eu poder voltar a viver. a Socorro é companheira, ela não me deixa morrer e eu não sei o motivo… então se eu morrer primeiro que você, fica assim, ó… eu tenho é… eu nunca disse pra ti, mas eu tenho é… além dos meus poemas, duas peças para teatro, (LORD NÃO SE CONTENDO DE RIR) tenho este romance na cabeça, um livro infantil para crianças – que estou escrevendo com a Adriana – e esta Carta para Manaus que é o meu desabafo… mas por que tu ris? é sério…por falar nisso, posso deixar um recado aqui pra Adriana? LORD. claro, claro, manda, vai. ÍNDIO. Adriana é o seguinte, a Adriana é uma mulher ma-ra-vi-lho-sa… Adriana? um beijo pra você meu amor daqui a vinte anos. papai já morreu, viu? (risadas gerais) não, mais é sério… LORD. qual é a tua impressão da morte? ÍNDIO. (lembrando um de seus poemas) a morte paira sobre mim, sobre ti, sobre a paz/ paira faminta em Kinshasa/ as guerras nascem da morte/ a morte presa à capsula/ química e fulminante/ os abrigos nas montanhas contém vida e morte: coexistem, coabitam/ mas o que é a morte senão uma palavra insípida que aprendeste a temer? abraças do corpo a vida?/ é a morte que por detrás afagas/ a morte não é abstrata… arghh, apaga, apaga, apaga isso!! LORD. a morte a morte a morte a morte a morte a morte a morte a morte… mas isso é lindo, cara! ÍNDIO. cê acha, é? ah, Burguês, eu te amo!! LORD. tu é muito querido também, meu chapa. ÍNDIO. mesmo que eu te traia no futuro? LORD. mesmo que me traias no futuro. ÍNDIO. como Judas traiu Jesus? LORD. como judas traiu Jesus, fazendo um bem imenso a humanidade. ÍNDIO. brindemos, então!! LORD. brindemos!! INDIO. A Judas? LORD. a Judas! ÍNDIO. vou pedir mais uma cerveja á Maria Pinto, mas estou com pouca grana. cê paga a próxima? LORD. pago sim. ÍNDIO. é assim que se fala, cara. (breve intervalo enquanto FraNZ troca a fita)

                      *********************************************************

(CONTINUAÇÃO DA MESMA NOITE)

ÍNDIO. Madre de Dios, cara, eu nunca esqueço. ali corria um rio vermelho enlameado e eu fui ver, eu fui ver um cara morto com a cabeça enfiada na lama…

LORD. (impaciente) mas depois que foste expulso do ônibus, ficaste exatamente onde?

ÍNDIO. depois disso, saca, andei como uma bosta cambaleante pela estrada escura até chegar num vilarejo chamado Pomeral. lá conheci um Boliviano e um Mato Grossense, mas antes, né, o ônibus, bem…

LORD. (chupando seu queixo com a mão direita)

ÍNDIO. não tinha dinheiro, mas eu tinha uma calça roubada, uma calça  quebra-mar, lembra as calças quebra-mar? naquela época a quebra-mar era bem cobiçada, só que a minha, que eu tinha roubada de um varal, era velha e tinha um rasgo no fundo, bem bem, era, bem bem, assim, rasgadona no fundo, mas tava nova porque eu tinha usado poucas vezes aquela calça, aí eu entrei no ônibus. aí então, o resto né, no meio da viagem eles chegaram pedindo o bilhete aí eu disse: “é o seguinte, vou pra Porto Velho, aí eu quero, eu quero, eu quero, somente ir, mas não tenho dinheiro, apenas uma  calça de marca rasgada e uma vontade imensa de ir”. aí mostrei a marca da calça, eu lembro que ele anotou, ele anotou lá no, lá no bilhetinho assim, “tudo certo…”

LORD. e aí?

ÍNDIO. aí que me botaram pra fora.

LORD. Putz!!

ÍNDIO. (acompanhando a musiquinha: abençoar…)

LORD. muita coragem, né cara?

ÍNDIO. aí, né cara… (tosses) cigarro, Burguês, porra!!

LORD. ah, sim, cigarro…

ÍNDIO. cê tá muito bonito, cara, tu. veio de onde, cara, tu?

LORD. (falando como uma menina. ) de casa. 

ÍNDIO. eu te curto pra caramba, sabia? se eu te trair no futuro, cê me perdoa?

LORD. bom…

ÍNDIO. bom?

LORD. eu não sei, caralho. talvez eu te perdoe, depende.

ÍNDIO. depende do quê?

LORD. do tipo de traição.

ÍNDIO. trair é trair.

LORD. se trair é somente trair, talvez eu não te perdoe.

                            há então esse vácuo sonoro

( & fim da gravação)

***

 

DELÍRIO DE FRANZ NA VOLTA PARA CASA

três da manhã. um homem correndo na chuva. uma sombra H2o. rá!! os holofotes dos taxis. este homem sou eu na madrugada e estou longe aproximadamente de casa. um taxi para. quando se entra curvo em um taxi num dia de chuva é como se faltasse uma metade de você. então você diz, boa noite motorista! me leva para um outro lugar. para o centro de qualquer lugar. seja gentil! estamos flutuando na mesma merda. bostas flutuadoras é o que somos. estamos sozinhos e doentes. você em seu carro, eu em meu cofre de delírios. me leve para onde não exista casa, família, lar, nada! ou simplesmente ficaremos aqui, só nós dois dentro desse seu carro rodando pela cidade vazia, que tal? ouviremos Rachmaninov – que eu adoro, já ouviu Rachmaninov? não se preocupe, eu pago a sua gasolina.  eu não tenho pressa de nada. o senhor tem alguma pressa? quero ver os neons gotejantes da cidade. as árvores que dançam com os monges. homens fornicando sob as marquises.  ligue o motor! gire as rodas! não ligue para minha insanidade. tudo na perfeita desordem. só siga e não pare enquanto eu  mandar! atravessaremos Manaus, a névoa,  o frio e a solidão. Oh noite triste! sou um desgraçado feliz. mas não importa quem eu seja agora. se trago comigo essa faca cravada em meu coração. sinto que devo apenas seguir. e me calar.    

neste instante ouço de verdade o barulho da chuva arranhando com suas unhas negras o vidro do carro. seu apelo é sagrado. calma e selvagem. seu cheiro implacável de chuva. nesse momento meus dedos congelados de frio abrem as janelas para sentir o cheiro da chuva. seu sexo molhado de mulher-chuva. A CHUVA É MULHER. a chuva não tem passado, presente ou futuro. meus dedos, minhas armas, o que restará disso tudo é uma capsula, porque o amor… bom, o amor,  a chuva tem uma vagina dourada. VA-GI-NA. sua visão é esplendorosa. com os dedos, ela abre sua fenda dourada e eu olho TODO O SEU INTERIOR. o interior de uma vagina de chuva. o senhor não vai acreditar no que estou vendo agora. a chuva se mostra por dentro. pare o carro, senhor! vou trepar com a chuva. pare o carro, já!  estou mandando! vou lamber cada partícula cintilante que dela emana e mostrar para o mundo que estou vivo. vou penetrar a chuva!!

afinal, de um jeito ou outro, todo mundo busca o amor, não é isso?

ÍNDIO. os mineiros eram lindos, cara. Romeu nem parecia um mineiro, o cara tinha os cabelos dourados e olhos claros, mas sua elegância era incomparável à elegância soberba de Napoleão.  único que destoava deles ali era eu que ficava mais e mais com a pele gasta e maltratada do sol e das bebedeiras violentas. já a pele deles, permaneciam intactas.

LORD. Napoleão certamente usava óculos.

ÍNDIO. todos usavam óculos por causa de suas hipermetropias, e quando todos eles me olhavam de uma só vez nos finais de tarde no Bar Lacerda, eu via as raízes vivas do sol refletidas nas lentes de seus óculos e aquilo pra mim era extraordinariamente belo. nunca os vi sem os óculos.

LORD. mas me conta mais um pouco sobre eles, cara.

ÍNDIO. os mineiros sobretudo eram humanistas, até na hora de comer. olha só, cara, pra começar, o almoço deles era arroz, beterraba, cenoura e carne cozida. a janta deles era, sopa de arroz, cenoura, beterraba, eeee, berinjela… nos domingos era, era, purê de batata, arroz branco com cenoura picada e carne cozida. tudo coloridinho, saca?

LORD. chegou a morar com eles? cê morava num quarto alugado ali próximo deles?

ÍNDIO. (começando a ficar bêbado e chato) quarto alugado, han? ééééé, meu anjo, quarto alugado sim, agora deixa eu te dar um abraço, deixa… 

LORD. só me conta, vai.

ÍNDIO. mas deixa eu te dá um abraço, cara…

(Indio abraçando calorosamente o Lord).

LORD. agora me conta, vai.

ÍNDIO. sim, sim, eu era vizinho dos mineiros numa pensão, sim, só depois é que fui morar nos fundos  da casa onde funcionava o jornal, então eu não precisava mais pagar aluguel nenhum, os mineiros me pagavam um salário porque me tornei uma espécie de office boy deles e colaborador do jornal, além de me pagarem um extrazinho também porque eu ajudava na limpeza do prédio, e aquela foi a melhor fase da minha vida porque eu vi aquele jornal decolar e depois despencar assim, ó, num estalo, ó, assim sabe… então é o seguinte, como eu era o office-boy deles, o Leopoldo dizia: Sam, falta pagar aqui uma promissória, vá lá e pague esta promissória; ou então, Sam, falta comprar cigarros e os tabacos do Napoleão, vá lá e compre! ou então, Sam, falta descontar este cheque pro Romeu, vá lá e desconte este cheque pro Romeu. e eu COM OS PÉS alegres e descalços ganhava as ruas barrentas e ensolaradas do centrão de Porto Velho sorrindo pro sol e as pessoas ali me olhavam atravessadas porque ninguém gostava da intromissão dos mineiros no cotidiano da cidade, mas que na verdade, era o jornal que incomodava; eram as ideias dos mineiros que incomodava aquela gente subserviente ao Gerônimo Bengala que fazia uma politica de pão e circo igual, era… mais, saca, a parte melhor era quando eu entregava os jornais nas bancas ou quando eu atirava os jornais nos pátios das casas, era como atirar uma bomba na paz daquela gente toda… e era sempre uma notícia bombástica para derrubar o tal de Bengala. então em Porto Velho eu curti muito, cara.  

LORD. os mineiros te ajudaram, cara…

ÍNDIO.  sim, me ajudaram muito. mas eu queria te falar agora de Cuiabá, de Brasília…

LORD. mas antes, faz um retrospecto de Porto Velho, vai?

ÍNDIO. faço sim, mas por que tu sumiu, cara, hein? mas por que tu sumiu? deixa eu te dar um abraço…

LORD. compromissos, cara, compromissos…

ÍNDIO. (abraçando outra vez calorosamente o Lord.)

ÍNDIO.  sabia que ando com saudades de ti, cara?

LORD. hannn… eu também… fala então de Cuiabá…

ÍNDIO. Cu-cu-Cuiabá? Bom, Burguês, Cuiabááá…eu morei em Cuiabá três meses… é, é,  uma cidade escrota. muito barro e quente demais…mas o meu objetivo mesmo era São Paulo. só que, quando cheguei em Brasília eu me senti desamparado e só. senti medo de seguir viagem, e depois de dois dias de intensa bebedeira pelos bares adjacentes da rodoviária, havia gasto tudo e então resolvi voltar. mas como é que volta? me lembro que fui colocado pra fora do ônibus. mas, não sei se devo falar sobre isso hoje.

LORD. não, mais… cê acha que deve falar…?

ÍNDIO. bom…

LORD. que rolou?

ÍNDIO. no ônibus é o seguinte, né cara, cê entra, se aconchega, e só depois no estradão é que eles pedem o bilhete, e quando isso aconteceu eu estava entre Mato Grosso e Rondônia sentado nos fundos abraçado a uma garrafa de cachaça – posso dizer a marca?

LORD. foda-se!!

 ÍNDIO. era uma garrafa de cachaça sessenta e um e eu estava abraçado desesperadamente a ela no meio de uma estrada escura. depois  tu conserta, tá?

LORD. mas não tem conserto.

ÍNDIO. chorei, cara…olhei pros rostos frios dos passageiros pedindo alguma espécie de ajuda mas ninguém me disse nada porque uma hora dessas tu é mais um fodido. e então eu fui atirado entre a escuridão e a morte…

LORD. ah, fala sério…

ÍNDIO. cheguei a ver ainda uma caras frias rindo da janela, zombando da minha desgraça. mas pula isso aí, cara, eu tô ficando bêbado.

(aí ocorre uma interrupção da fita devido a embriaguez de ambos. depois de meia hora, a gravação recomeça. fraNZ tenta a todo custo entender como Sam retorna á Porto Velho. mas não que Sam insista em pular esta parte – na verdade até hoje, Sam nunca revelou a FraNZ como sobrevivera aquele episódio em que é jogado no abismo negro. o que fraNZ ouviu ele dizer é que, na vida da gente sempre existe uma lacuna, mas fraNZ não consegue engolir aquela estória, não…)                                                                                                                                                                                                

 

ÍNDIO. os mineiros eram guevaristas, cara. quando cheguei em Porto Velho, já tinha lido a metade do O Capital, do Marx, tinha lido muito sobre Cuba, sobre Fidel, Chê, mas ainda não tinha alguém que me levasse para uma ideia mais, mais, preponderantemente prática e aprofundada acerca das revoluções, saca? foi quando os mineiros apareceram na minha vida, lá em Porto Velho. aí eu comecei a enxergar tudo, saca? os mineiros eram jornalistas, intelectuais, e eles foram a minha âncora.
LORD. eles bebiam, fumavam muito?
ÍNDIO. bebiam sim, e fumavam muito também. alguns fumavam cigarros, charutos…Napoleão fumava cachimbo e usava cavanhaque. era o mais elegante deles. alto e elegante. o mais intelectual deles, era. este Napoleão já me manjava, e um dia ele e o Romeu (que era um outro mineiro), me vendo sujo e bêbado pelas ruas de Porto Velho, me chamaram e disseram: “por que tu gostas de viver assim?” “assim, como?” perguntei zangado, “assim, cara, sujo e duro?” e eu respondi, “eu sou índio, cara! eu sou índio, bicho! eu sou um manaó…” “senta e toma uma cerveja com a gente.” e assim começou tudo. eram educados, os caras, mas deixa eu te falar deste Napoleão especificamente porque era o mais legal e o mais culto dos três. quando cheguei lá em Porto Velho, Napoleão já tinha voltado de Minas com ideias de fundar um jornal, uma espécie de jornal de oposição na cidade, veja bem, ele e o Romeu. os mineiros, tipo, eram quatro: o Napoleão, o Alencar, o Leopoldo e o Romeu. todos elegantes e cheios de ideias. ficavam tipo, impressionados comigo. Leopoldo falava: “porra, cara, tu tens respostas pra tudo.” e eu falava sobre Porto Velho, sobre as ruas de chão de barro, sobre os prédios precários – caindo aos pedaços – sobre aquela gente sofrida e explorada porque eu estava há mais tempo que os mineiros lá e eu me sentia no direito de poder falar do chão de onde eu pisava, e um belo dia mostrei meus poemas ao Napoleão e ele e o Romeu me chamaram pra trabalhar com eles no jornal que pretendiam fundar ali, um jornal de oposição, saca? na época, deixa eu te dizer, na época, na época em Porto Velho reinava o governo do Bengala, Gerônimo Bengala, este cara foi o seguinte, foi um cara corrupto que desviou verba do governo federal pra comprar apartamentos em Ipanema e na avenida São João, né cara? então nós, nós, já com o jornal funcionando, fizemos um abaixo assinado pedindo a interdição dele, mas não teve muita repercussão porque a questão era forte, peixe grande, né cara, e ficamos nisso… sabe, hoje eu penso, Chê Guevara lutou pela liberdade, pela reforma agrária, sai dessa, Sam! é, eu, Burguês, cresci, saca? e hoje eu não tenho materialmente nada, apenas algumas ideias preâmbulosas…
LORD. mas eu quero saber um pouco dos mineiros, cara.
ÍNDIO. primordialmente, eu e os mineiros discutíamos a vida em todos os seus sentidos. só que, quando você discute a vida, você não discute apenas a questão de respirar, você discute a maneira de comer, de beber, de andar, de conviver, de morar, entendeu? O quê que se resume a isso? resume a você conviver, mas o que é conviver? conviver, deixa eu te dizer, conviver é… o estado psicológico e social de você estar na sociedade.
LORD. viver pacificamente, é isso?
ÍNDIO. não, não é isso, é outro passo. a questão é de você viver e de se relacionar socialmente, se é pacificamente, eu já não sei, entendeu? mas aí é o seguinte, aí vem a ramificação de tudo isso, de você viver uma vida pacificamente ou não. cê pode até matar ou morrer, mas é socialmente que você vive, é socialmente o ato de você contestar…
LORD. fico pensando nos mineiros ouvindo os teus delírios…
ÍNDIO. é Burguês, é verdade, é verdade, e Napoleão se assemelha muito a você, sabe, cara, um sujeito pacífico, intelectual, se assemelha muito a você…
LORD. hummmm
ÍNDIO. posso cuspir?
LORD. pode, pode.
ÍNDIO. porque eu acho que o cuspe pra mim é tudo, cara. quem não cospe, está morto. (Índio dando uma cusparada)
LORD. está morto, está morto. bela filosofia. mas fala um pouco mais dos mineiros, cara.
ÍNDIO. um dia como este já estávamos bebendo. bebíamos todos os dias depois que deixávamos o jornal. havia um bar logo de esquina, perto do Cine Lacerda onde enchíamos a cara e filosofávamos. eu me sentia importante no meio deles porque eles me deixavam pensar, e eu as vezes extrapolava e vomitava os meus delírios. aprendi numa tarde cruzar as pernas como o Napoleão e a gesticular freneticamente como o Alencar e como o Leopoldo, e assim eu fui me sentindo importante ali, no meio deles. no meio de um lugar esquecido e terrivelmente quente. foram os mineiros sem dúvida alguma que trouxeram um pouco de luz pra Porto Velho, e se hoje eu sou o pouco que sou, agradeço aos mineiros.
LORD. os mineiros…
ÍNDIO. era sempre Napoleão que dizia, quando os ânimos se exaltavam: Sam, você tem a palavra…
LORD. e você tinha a palavra sempre?
ÍNDIO. eu tinha a palavra naquele momento da minha vida. eu tinha a palavra. Sam tu acha isso? Sam tu acha aquilo? eu não acho isso, eu não acho aquilo, eu penso dessa maneira, agora cê imagina um índio tendo a palavra, eu tinha a palavra, e não achava, eu pensava sobre isso ou aquilo, saca? isso em oitenta e seis, a mais de dez anos atrás. os mineiros eram lindos, cara, e tinham uma pele macia, olhos claros e a mesma altura. andavam esguios e onipotentes pelas ruas poeirentas e ensolaradas de Porto Velho. pareciam deuses.
LORD. e o que eles faziam nesse cu de mundo, cara? o que eles buscavam, afinal?
ÍNDIO. o mesmo que eu buscava.
LORD. mas o quê?
ÍNDIO. sei lá!!
LORD. só.