CALDO QUENTE OU O CAPÍTULO DAS TRANSCRIÇÕES – PARTE XXX

Posted: September 22, 2011 in Uncategorized

LORD. cê aliás ia falar sobre tua experiência no garimpo.

ÍNDIO. ia, é? sim, eu ia, mas houve este corte, mas ainda posso te dizer que – bom, havia esse lugar chamado Pomeral que era um garimpo e que ficava entre Mato Grosso e Rondônia; lá mesmo onde fui atirado daquele ônibus e que depois andei perdidão a madrugada toda e uma parte do outro dia também até esbarrar com aqueles dois figuras, o Boliviano e o Mato Grossense, que me levaram a este lugar com promessas de que podíamos ficar ricos com a extração de ouro. e quando lá cheguei, claro, um impacto, cara, porque o garimpo é aquela onda toda, né cara? fiquei um tempo olhando abestalhado para aquelas enormes dragas com seus tubos de sucção de aço chupando as pedras preciosas que ficavam no fundão do rio, porque o ouro que é extraído dos rios de Rondônia é feito por meio daqueles enormes monstros mecânicos, entendeu? e eles ficam ali só na deles drenando a areia debaixo que contém o ouro, então esses MONSTROS MECÂNICOS ENORMES vão perfurando, né, mais e mais, uns trinta metros de profundidade, não, não, não, não, trinta metros, não, mas, uns quinze ou vinte, mas chega a trinta metros sim, e bom, aí que, o ouro é sugado por um tubo de sucção de aço e em seguida é despejado numa esteira toda feita de carpete responsável pela absorvição daquela areia que contém o ouro… depois que este ouro é retirado da esteira, ele segue para o processo de peneiração onde aí sim, vão ficando os primeiros indícios de ouro que serão colocados em uma cuia de ferro junto com o azougue que é um metal líquido popularmente conhecido como MERCÚRIO, né? ele absorve somente o ouro e pronto, aí está o princípio de tudo…

LORD. todo um processo, eu sei, mas… fala um pouco do aspecto daquelas pessoas ali. isso me interessa saber também…

ÍNDIO. bom, temos que avaliar assim: patrões e empregados, desde os primórdios, né cara? a eterna luta de classes. noventa por cento dos empregados eram pessoas rudes; pessoas assim, bem sofridas mesmo, assim, tipo, sem perspectiva alguma na vida a não ser sair dali com bastante dinheiro no bolso, chegar em um bar – e isso deixa eu lhe dizer – faz parte até da vaidade deles, que era de chegar no bar, fechar o bar, juntar mulheres e beber, beber e beber e mostrar seus cordões de ouro e seus dentes de ouro, e, é é é, essa coisa de mostrar o cordão de ouro, ela é mais predominante entre os patrões, mas existiam a piãozada que gostava de exibir seus cordões de ouro também…

LORD. havia alguma alegria ali? tipo, como era o ambiente lá, cara? era triste, algo assim?

ÍNDIO. um contraste, né, cara – uma falsa alegria era o que se podia ver no rosto daquelas pessoas… Burguês, cara, se eu falar para você porque raios eu fui viver essa vida, cara, especificamente no garimpo – e agora sim fiquei bastante entusiasmado para lhe contar sobre minha vida no garimpo porque há uma porção de coisas que talvez não caiba neste teu livro que pretendes escrever porque eu também não quero sair atropelando as lembranças porque sei muito bem que pode atrapalhar todo o processo, e tu me conheces muito bem que quando começo a falar eu, eu, eu… me emociono, pacas.

LORD. não, não, não, quero que tu faça apenas um apanhado dos fatos, tipo, o aspecto do lugar, das pessoas…

ÍNDIO. começa, começa, começa, assim… como podemos começar, bom, começamos assim falando das currutelas que é o principio de tudo, é onde tudo começa; bares, farmácias, comércios, alojamentos, bordéis, e bom,  a isso dá-se o nome de currutelas, e as currutelas nada mais são que picadas abertas na mata. por exemplo, cara: uma draga daquela fareja e encontra ouro ali e então a notícia se espalha, e o que acontece é que, obviamente só terão acesso aquele lugar através do rio, então as pessoas como pragas se dirigem para  lá por meio de balsas ou voadeiras. os que chegam de balsas trazendo as dragas, são para cavucar o ouro, enquanto os outros que ali chegam de voadeiras, são para derrubar as primeiras árvores para edificar o bar…

LORD. são as primeiras picadas, né?

ÍNDIO. são as primeiras picadas para edificar o bar, depois uma outra árvore para edificar a farmácia, e depois mais outra que é pro comércio, e mais outra e outra até ir se formando um organismo vivo que é a currutela, e aí cê sobrevoando de  helicóptero o que você vai poder ver e o enorme vácuo que fica na mata e aquilo dói, cara!

LORD. aham. caralho…

ÍNDIO. a currutela geralmente começa no rio e avança em linha reta para o interior da mata. uma reta, deixa eu ver… bom, cem a duzentos metros em linha reta, aí assim, as edificações vão se formando uma ao ladinho da outra, tipo, os bordéis, os alojamentos, as farmácias, os comércios, os bares… mas o que predomina mesmo são os bares que na verdade são  bordéis, são mais de… não sem bem te precisar, mas sei que tudo que chega às currutelas vem pelo rio, agora há algumas currutelas – e são poucas – que tem o privilégio de receber as provisões pela estrada, mas só algumas, a maior parte vem pelo rio mesmo…

LORD. e a dona desses bordéis, cara, a maioria são mulheres, não é mesmo?    

ÍNDIO. putas velhas que já não servem mais para o sexo, mas que são úteis para organizar um bordel e recrutar meninas.

LORD.  e essas meninas são de onde exatamente?

ÍNDIO. no caso de Rondônia, Burguês, a maioria são rondonienses mesmo, acreanas, paraenses, ou até mesmo amazonenses…

LORD. elas são iludidas, é? como funciona?

ÍNDIO. algumas são iludidas sim, cara, outras não; sabem para o que vem. só que elas não tem uma noção do que vão encontrar de verdade lá; elas pensam que é mais um bordel da cidade, e não é. o que elas vão encontrar lá são homens rudes que compram o teu amor com dinheiro e ouro e se não rolar sintonia, eles matam, e lá eu conheci a Rose, cara, que era uma acreana linda linda linda, cara, e as acreanas, deixa eu te dizer,  são lindas de matar, e a Rose foi o seguinte, a Rose foi mais uma daquelas garotas iludidas com promessas de um emprego decente em Rondônia, mas que acabou indo parar no garimpo de Pomeral.

LORD.  e quem foi que a recrutou?

ÍNDIO. ela me contou tudo, cara, tudinho. uma certa mulher havia prometido à mãe da Rose – e isto ainda em RB, manja só, que ela empregaria a filha dela como garçonete em um restaurante em Rondônia, e de fato essa tal mulher tinha mesmo um restaurante, só que, as garotas que eram contratadas por ela para trabalhar neste restaurante, cedo ou mais tarde eram vendidas a outras pessoas proprietárias de bordéis nos garimpos. foi o caso da Rose, que trabalhou alguns meses neste restaurante e depois foi vendida a um desses bordéis que ficava em Pomeral.

LORD. depois que entra, não sai mais, é?

ÍNDIO. é difícil porque é o seguinte, né, cara, tu tá no antro da perdição, imagina, aonde a Rose foi morar era um puteiro, cara, tu passa a morar  num quartinho feito de lona com vigas de madeiras, chão de barro e cobertura de palha, e é nessas condições que tu passa a viver, porque no garimpo não existe luxo, não, o garimpo, Burguês, é que nem fábrica pré-moldada, pré-moldada não é isso? quando o ouro não dá mais pé, cê desmonta rapidinho e vai embora para outro estado, porque cê sabe que a currutela é um organismo que vive em função do ouro, e chega um dia que tudo seca, cara, e aí é hora de desmontar tudo e ir embora, quem ganhou, ganhou, quem perdeu, perdeu, é a lei do garimpo, por isso não há uma necessidade de se construir habitações de conforto porque ninguém tá interessado nisso; tendo um quartinho, bebida, dinheiro e mulher, tá  bom demais porque os caras ali são animais, animais mesmo, não estão nem aí, cara, eles matam brincando, É A REGRA, e aí quando acaba o ouro o pessoal desmonta tudo rapidinho, tira a lona pou pou pou pou pou tudo que é pau e palha e, a coisa mais horrível, cara, é uma currutela depois que o ouro acaba,  que coisa mais feia, cara… sabe que é tu ver só cachorros vagando perdidos pela estrada porque não alcançaram as balsas e tiveram que voltar? cachorros e cadelas gordas que ficaram para trás e que mais tarde vão vão vão ser devoradas por onças ou por outros animais selvagens, ou então ficarão magras e morrerão de fome porque… acabou, cara, acabou,  e o que era uma picada, logo vai  desaparecer e aí a mata vai se fechando de novo e tomando conta de tudo outra vez, como algo sobrenatural, e numa ocasião, eu fui em uma, cara, fui em uma currutela imensa e toda iluminada com luzes de arraial, cara, não era luz de motor, não, eram luzes de verdade, luzes de verdade, e era assim de ponta à ponta toda iluminada, e eram umas luzes tristes de cortar o coração, e não eram somente as luzes que me deixava com o coração cortado, não, mas a musiquinha que tocava o dia todo em um alto falante invisível; saca aquele orgãozinho de carrossel que cê ouve quando você vai aos domingos a um parquinho pobre desses arrebentado e fica ali olhando a roda-gigante girar sem parar e aí você lembra que está sozinho na vida e que não há nada mais importante a fazer do que ficar ali olhando aquela imensa roda girando e girando e girando e aquele orgãozinho triste tocando lá no fundo e aí você se pergunta afinal, e agora o que que eu vou fazer com a porra da minha vida agora? não há um sentimento pior que a solidão, e tudo ali naquela currutela era solidão e lembranças mortas, é aí que você se dá conta de verdade que está em um garimpo longe de casa e que está fodido porque você não juntou nenhum ouro até agora, nada de nada, que tudo é uma ilusão, que a porra do ouro é uma ilusão, que tua vida é uma grande ilusão…

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